Setembro é conhecido como o mês de conscientização e prevenção ao suicídio. Mais do que uma campanha nas redes sociais, o Setembro Amarelo nos lembra de algo essencial: sofrimento emocional precisa ser levado a sério — e pedir ajuda pode mudar uma história.
O suicídio não costuma ter uma única causa. Ele é um fenômeno complexo e multifatorial, que pode envolver transtornos mentais, sofrimento emocional intenso, dificuldades sociais, perdas, uso de álcool e outras substâncias, violência, conflitos e diferentes situações de vulnerabilidade.
O que os dados mostram no Brasil?
Os números brasileiros merecem atenção. Dados oficiais do Ministério da Saúde mostram que, entre 2010 e 2021, a taxa de mortalidade por suicídio no Brasil aumentou 42%, passando de 5,2 para aproximadamente 7,5 mortes por 100 mil habitantes.
Em 2022, foram registrados 16.549 óbitos por lesões autoprovocadas intencionalmente e suas sequelas no país. O Ministério da Saúde já disponibiliza bases mais recentes no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), mas é importante diferenciar dados preliminares de dados consolidados.
Homens e mulheres
Existe uma diferença importante entre os sexos. Em 2021, a taxa de mortalidade por suicídio foi de aproximadamente 11,9 por 100 mil entre os homens e 3,3 entre as mulheres. Ou seja, a mortalidade masculina foi mais de três vezes maior.
Isso não significa que o sofrimento emocional seja menor entre as mulheres. Tentativas, ideação suicida e mortes por suicídio são fenômenos diferentes e precisam ser analisados separadamente.
E a idade?
O risco também não se distribui igualmente ao longo da vida. Nos dados nacionais de 2021, entre os homens, as taxas aumentavam progressivamente nas faixas adultas e chegavam a 18,1 mortes por 100 mil entre aqueles com 70 anos ou mais. Entre jovens, os números também preocupam: na faixa de 15 a 19 anos, as taxas foram de 9,3 por 100 mil nos meninos/homens e 4,5 nas meninas/mulheres.
Por isso, prevenção não deve olhar apenas para uma idade específica. Adolescentes, adultos e idosos podem precisar de atenção, ainda que os fatores de vulnerabilidade sejam diferentes em cada fase da vida.
Afinal, o que pode levar uma pessoa a pensar em suicídio?
Não existe uma resposta única.
A depressão é um importante fator associado, mas não é sinônimo de comportamento suicida. A OMS destaca que experiências como abuso, perdas importantes e outros eventos estressantes também aumentam a vulnerabilidade à depressão e ao sofrimento psíquico.
Entre os fatores que podem aparecer isoladamente ou combinados estão depressão e outros transtornos mentais, uso prejudicial de álcool e outras substâncias, perdas e luto, violência ou abuso, conflitos familiares ou afetivos, isolamento social, dificuldades financeiras ou profissionais, doenças e dor persistente, além de sentimentos intensos de desesperança ou de não encontrar saída para determinada situação. O uso de álcool, por exemplo, está associado a maior risco de comportamento suicida e pode agravar quadros depressivos.
E aqui existe uma mensagem importante: ansiedade, depressão ou luto não significam que uma pessoa necessariamente apresentará comportamento suicida. São situações que precisam ser compreendidas dentro da história e do contexto de cada indivíduo.
Alguns sinais merecem atenção
Mudanças bruscas de comportamento, isolamento crescente, desesperança, perda de interesse pelas atividades habituais, alterações importantes de sono ou alimentação, aumento do consumo de álcool ou drogas, despedidas incomuns e falas frequentes sobre morte, desaparecer ou não ter motivos para continuar vivendo são sinais que não devem ser ignorados.
Nenhum sinal isolado permite prever um suicídio. O Ministério da Saúde recomenda observar especialmente quando vários sinais aparecem juntos ou representam uma mudança significativa no comportamento habitual da pessoa.
Como ajudar alguém que fala em suicídio?
A primeira atitude é levar a fala a sério.
Escute sem julgamento e sem tentar resolver tudo imediatamente. Frases como “você tem tudo, não deveria estar assim”, “isso é falta de força” ou “pense em quem está pior” tendem a aumentar o sentimento de incompreensão.
Perguntar diretamente se a pessoa está pensando em morrer ou em se machucar não incentiva o suicídio. Ao contrário, abre espaço para que ela fale sobre aquilo que talvez esteja enfrentando sozinha.
Procure ajuda profissional e mobilize uma rede de apoio. Se houver risco imediato, não deixe a pessoa sozinha e procure um serviço de urgência. A Rede de Atenção Psicossocial do SUS inclui UBS, CAPS, UPA, serviços hospitalares e SAMU 192.
Também é possível procurar o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, que oferece apoio emocional.
Setembro passa. O cuidado precisa continuar.
Prevenção ao suicídio não acontece somente em setembro.
Ela acontece quando conseguimos perceber mudanças, quando perguntamos como alguém realmente está, quando não minimizamos o sofrimento e, principalmente, quando entendemos que pedir ajuda não precisa ser o último recurso — pode ser o primeiro passo.
Na Bonfim Saúde Emocional, acreditamos que falar sobre sofrimento emocional com responsabilidade é também uma forma de cuidado. Você não precisa esperar chegar ao limite para procurar ajuda. 💛
Referências
- BRASIL. Ministério da Saúde. Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil de 2010 a 2021. Boletim Epidemiológico, v. 55, n. 4, 2024.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Suicídio (Prevenção). Brasília: Ministério da Saúde.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Dados Abertos do SUS.
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Depressive disorder (depression). WHO, 2025.
- ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Álcool e suicídio. OPAS/OMS.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Rede de Atenção Psicossocial e ações de prevenção ao suicídio.
